Por Equipe técnica da Codi
Com Lula reeleito, a indústria entra em 2027 com uma pergunta nova e várias respostas que já estavam escritas. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o segundo turno em 25 de outubro, com 64,2 milhões de votos, contra 59,8 milhões de Flávio Bolsonaro (PL). A posse será em 5 de janeiro de 2027, e o mandato vai até janeiro de 2031.
No primeiro pregão depois da eleição, o dólar fechou a R$ 5,40, alta de 8,2%, e o Ibovespa caiu 13,9%. Para quem dirige uma fábrica, porém, a pergunta útil não é quem ganhou. É outra: o que, de fato, muda na operação em 2027, e o que já estava decidido antes das urnas?
Este artigo separa as duas coisas. No fim, você terá duas listas: o que depende de Brasília e o que depende da sua fábrica. A segunda é a que você consegue medir e mudar.
O que o mercado sinalizou na primeira semana
O resultado contrariou a aposta de parte do mercado financeiro, e isso apareceu no câmbio e nos juros:
- Dólar: saiu de R$ 4,99 no fechamento de 23/10 para R$ 5,40 em 26/10. Em 29/10, ainda estava em R$ 5,39.
- Juros futuros: os contratos de prazo longo chegaram a subir mais de 2 pontos percentuais no primeiro pregão.
- Selic: está em 13,75% ao ano. O Copom se reúne em 3 e 4 de novembro. [DECISÃO ATÉ 4/11]
Do lado do governo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo vai buscar cumprir a meta fiscal. A equipe econômica do novo mandato ainda não foi anunciada; a previsão é que os nomes saiam até o fim do ano.
Para a fábrica, isso se traduz em duas variáveis. O câmbio mexe no custo do insumo importado e no preço do produto importado que concorre com o seu. Os juros mexem no capital de giro, no financiamento e na conta de qualquer investimento. As duas devem seguir oscilando até que a política econômica do novo mandato fique clara.
O que já estava decidido antes do segundo turno
Boa parte do que vai pesar no custo da fábrica em 2027 foi definida antes da votação e não muda com o resultado.
Reforma tributária: a CBS começa a ser cobrada em 1º de janeiro
Pela Lei Complementar 214/2025, a partir de 1º de janeiro de 2027:
- a CBS passa a ser cobrada de fato;
- PIS e Cofins deixam de existir;
- o IPI vai a zero para quase todos os produtos (a exceção é a Zona Franca de Manaus);
- começa a valer o Imposto Seletivo.
ICMS e ISS saem de cena aos poucos, entre 2029 e 2032. A alíquota final ainda não está fechada: em julho, o Comitê Gestor do IBS estimou uma alíquota de referência de 27,91%, acima do teto de 26,5% previsto em lei. Em 2026, o novo imposto era um teste; em 2027, erro de cadastro vira tributo pago errado.
Jornada: 42 horas semanais a partir de 16 de dezembro
A Emenda Constitucional 141/2026, promulgada em 16 de outubro, acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada máxima em duas etapas, sem redução de salário:
- 16/12/2026: limite de 42 horas semanais e dois dias de descanso por semana;
- dezembro de 2027: limite de 40 horas semanais.
O limite de 8 horas por dia continua. Distribuir 42 horas em cinco dias (8h24 por dia) depende de acordo ou convenção coletiva durante a transição. Vale alinhar o tema com o jurídico e com o sindicato antes de 16 de dezembro.
A indústria é um dos setores mais expostos: em dezembro de 2025, 88% dos vínculos formais da indústria de transformação estavam na faixa de 41 a 44 horas semanais.
O plano de governo aponta continuidade
O plano apresentado ao TSE mantém o arcabouço fiscal e a Nova Indústria Brasil como base da política industrial, com foco em inovação, inteligência artificial e minerais críticos. Também prevê ampliar o programa Brasil Mais Produtivo, voltado a ganhos de produtividade em pequenas e médias empresas.
E um fator que vem de fora: a tarifa dos Estados Unidos
Desde 22 de julho, os EUA cobram uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. De janeiro a agosto, as exportações da indústria de transformação para os EUA caíram 4,9%, enquanto as vendas para o resto do mundo subiram 6,6%.
Duas listas para 2027: o que depende de Brasília e o que depende da sua fábrica
| Depende de Brasília (e do mundo) | Depende da sua fábrica |
| Selic e custo do crédito | Horas de máquina parada e seus motivos |
| Câmbio | Tempo de setup |
| Alíquota final da CBS e do IBS | Refugo e retrabalho |
| Jornada máxima de trabalho | Ritmo das máquinas e microparadas |
| Tarifas sobre exportação | Ordem em que a produção é sequenciada |
| Composição da equipe econômica | Qualidade do dado que alimenta custo e preço |
A coluna da esquerda vai ocupar o noticiário. A da direita cabe em um indicador que a fábrica pode acompanhar todos os dias: o OEE, que multiplica disponibilidade, performance e qualidade de cada máquina.
Por que a segunda lista vale mais em 2027
A hora fica mais cara. Com a mesma folha e menos horas, o custo de cada hora de mão de obra sobe. Passar de 44 para 42 horas significa 4,8% a mais por hora (44 ÷ 42). Chegar a 40 horas significa 10% a mais (44 ÷ 40). Cada hora de máquina parada passa a custar mais.
O erro de investimento fica mais caro. Com a Selic em 13,75% e o juro real perto de 9,5% ao ano, comprar uma máquina nova quando o problema era parada ou setup prende capital caro numa máquina que vai rodar com a mesma perda. Antes de comprar capacidade, vale provar onde está o gargalo.
A margem já está apertada. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), da CNI, ficou em 46,2 pontos em outubro. É o 22º mês seguido abaixo de 50, a linha que separa confiança de falta de confiança.
E agir sobre a eficiência funciona. No programa Brasil Mais, as indústrias atendidas entre 2020 e novembro de 2022 tiveram ganho médio de produtividade de 69,2% e redução de 31% nas perdas de material, segundo o SENAI.
Imagine duas fábricas com o mesmo mix e a mesma folha. Em 16 de dezembro, as duas perdem duas horas por semana de cada pessoa. A primeira sabe quanto do turno vai para paradas, setup e refugo — e começa a recuperar capacidade ali. A segunda vai descobrir o impacto no prazo de entrega.
Na prática: o que muda quando a fábrica passa a medir
Metalúrgica Buzin: a maior perda não estava onde se imaginava
Na Buzin, a gestão se apoiava na experiência dos gestores. Os dados eram coletados em planilhas, e as análises chegavam quando o cenário da fábrica já tinha mudado. Com a entrada de concorrentes globais e a queda das margens, decidir sem dado confiável ficou caro.
Com o Codi MES, a empresa passou a acompanhar a produção em tempo real e encontrou uma surpresa:
“A gente imaginava que a nossa maior perda de tempo era no setup e descobriu que não era.” — Cintia Buzin, diretora da Metalúrgica Buzin
Antes de investir para reduzir setup, a Buzin descobriu onde realmente valia investir. Leia o case completo.
MRplast: 30% menos tempo em rotinas operacionais
A MRplast fabrica componentes para cadeiras na Serra Gaúcha. Os sistemas de planejamento e os de controle da produtividade não conversavam, e o acesso a registros e relatórios era limitado. Desde 2021 com o Codi MES, a empresa reduziu em 30% o tempo gasto com rotinas operacionais. O ganho permitiu absorver o aumento de demanda com a mesma equipe.
“Otimizamos o trabalho e deixamos que as pessoas focassem em demandas mais estratégicas.” — Ana Flavia Fagundes, analista de qualidade da MRplast
Com a jornada menor a partir de dezembro, “a mesma equipe produzindo mais” deixa de ser meta e vira necessidade. Leia o case completo.
Como o Codi MES mede o que está no seu controle
- Coleta automática: coletores ligados à máquina registram produção e paradas sozinhos, inclusive as paradas curtas que ninguém anota.
- Motivo de cada parada: o operador aponta o motivo na tela, e o sistema monta o ranking de perdas por máquina, turno e produto.
- OEE em tempo real: separado em disponibilidade, performance e qualidade, para mostrar se o problema é parada, ritmo ou refugo.
- Setup medido de verdade: o tempo real de cada troca, e o sequenciamento com IA para agrupar ordens e reduzir o número de trocas.
- Integração com o ERP: custo de produção calculado com tempo e consumo reais, não com os de cadastro. Entenda a diferença entre ERP e MES.
O Codi MES não calcula tributos nem substitui o ERP. Ele entrega o dado de produção que sustenta as decisões de custo, preço e investimento.
5 perguntas para responder antes de 2027
- Qual é o OEE real da sua máquina gargalo — medido, não estimado?
- Quantas horas por mês a sua fábrica gasta com setup?
- Quais são os três maiores motivos de parada não planejada?
- Quanto o refugo e o retrabalho custaram, em reais, no último trimestre?
- O orçamento de 2027 já considera 42 horas semanais a partir de dezembro de 2026 e 40 horas a partir de dezembro de 2027?
Se alguma resposta for “não sei” ou “mais ou menos”, é por ali que vale começar.
Perguntas frequentes
O que muda para a indústria com Lula reeleito? O plano de governo aponta continuidade: arcabouço fiscal mantido, Nova Indústria Brasil e ampliação do Brasil Mais Produtivo. As maiores mudanças de custo para 2027 — a CBS e a jornada menor — já estavam definidas antes da eleição.
Quando começa a jornada de 42 horas? Em 16 de dezembro de 2026, dois meses após a publicação da Emenda Constitucional 141/2026. O limite de 40 horas semanais vale a partir de dezembro de 2027.
Quando a CBS começa a ser cobrada? Em 1º de janeiro de 2027, quando PIS e Cofins são extintos e o IPI vai a zero para a maioria dos produtos.
Como medir a eficiência da fábrica? O indicador mais usado é o OEE, que multiplica disponibilidade, performance e qualidade. Um sistema MES calcula o OEE automaticamente, com dados coletados direto das máquinas.
Conclusão
A eleição definiu quem governa pelos próximos quatro anos. Juros, câmbio e alíquotas vão continuar sendo decididos fora da fábrica. Quanto rende cada hora, cada setup e cada peça continua sendo decidido dentro dela e pode ser medido a partir de hoje.
Quer saber quanto da capacidade da sua fábrica se perde em paradas, setup e refugo?
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Fontes
- Suno — votos do segundo turno e reação do dólar
- BP Money — posse em 5 de janeiro de 2027 (Emenda Constitucional 111)
- Legisweb / Agência Brasil — dólar +8,21% e Ibovespa −13,88% em 26/10
- Poder360 — dólar a R$ 4,993 em 23/10
- Suno — dólar a R$ 5,387 em 29/10
- Nord Investimentos — juros futuros após o segundo turno
- InvestNews — propostas econômicas do novo mandato, Selic e alíquota estimada
- Mercado&Consumo — Durigan e a meta fiscal (27/10)
- A Crítica — ministro da Fazenda será definido até o fim do ano
- O POVO — cronograma da reforma tributária
- Taxcel — o que muda em janeiro de 2027
- Senior — Emenda Constitucional 141/2026, 42 h a partir de 16/12/2026
- Brasil de Fato — prazos da emenda e 8h24 por dia
- Mayer Brown — acordo ou convenção coletiva na transição
- Moody’s Local — PEC 6×1: impactos setoriais
- IstoÉ Dinheiro — Monitor Amcham do comércio Brasil–EUA
- Jornal NH — tarifa adicional de 25% a partir de 22/07
- A Crítica — ICEI de outubro de 2026
- Carta IEDI nº 1173 — resultados do Brasil Mais
- CODI — case Metalúrgica Buzin
- CODI — case MRplast
- CODI — escassez de mão de obra e o case MRplast